Espelho - Não - Espelho / Latão e Inox / Vertical
O Espelho–Não–Espelho nasce da tensão entre função e percepção. Ao subverter a expectativa de um reflexo fiel, a peça propõe um deslocamento conceitual: o espelho deixa de ser apenas instrumento utilitário e passa a operar como mediador poético entre corpo, espaço e imagem.
A introdução de uma lâmina frontal em vidro canelado ou martelado — aplicada parcialmente sobre uma superfície refletiva — provoca distorções controladas no reflexo, instaurando um jogo visual entre nitidez e ruído, presença e abstração. O usuário não se vê por inteiro: vê-se em camadas, em fragmentos, em variações ópticas que transformam o ato cotidiano de se olhar em uma experiência sensorial e reflexiva. O resultado é um objeto que tensiona a própria ideia de espelho, operando no território limítrofe entre arte funcional e design conceitual.
A composição material é estruturada como um sistema de planos sobrepostos, no qual materiais distintos dialogam por contraste e complementaridade. A superfície refletiva passa a ser construída a partir da combinação de chapa de inox polido e chapa de latão polido, associadas a vidros especiais — canelados ou martelados. A substituição dos espelhos tradicionais por metais polidos introduz uma camada adicional de complexidade perceptiva: o reflexo torna-se mais matérico, levemente mais quente ou mais neutro conforme o metal, e sensível às variações de luz e do entorno.
Essas variações cromáticas, ópticas e texturais não operam apenas como escolha estética, mas como ferramenta de construção espacial, criando profundidade, ritmo e mudanças perceptivas conforme o deslocamento do observador e a incidência luminosa. A presença do metal polido reforça o caráter escultórico da peça e aproxima o objeto do campo da matéria arquitetônica, ampliando sua potência tátil e visual.
Mais do que um espelho, o Espelho–Não–Espelho se configura como um dispositivo de percepção. Um objeto que não se limita a refletir o espaço, mas o interpreta, o fragmenta e o devolve ao observador sob novas camadas de leitura. Trata-se de uma peça que convida à pausa, ao estranhamento sutil e à ampliação do olhar.
Observações Técnicas:
As cores dos acabamentos (latão e inox) podem apresentar variações devido às configurações individuais de cada tela, bem como à iluminação do ambiente.
Há ainda uma dimensão temporal inscrita nessa dualidade material. Se, por um lado, o aço inox 304 preserva sua estabilidade e resistência à oxidação, mantendo ao longo do tempo sua superfície fria e especular, por outro, o latão está sujeito à oxidação natural e ao surgimento gradual de pátinas, registrando a passagem do tempo sobre sua matéria. Esse contraste não opera apenas como característica técnica, mas como camada conceitual da peça: entre permanência e transformação, o Espelho-Não-Espelho incorpora o tempo como elemento ativo de sua narrativa, permitindo que parte de sua superfície envelheça, se altere e construa memória, enquanto outra permanece íntegra, refletindo a tensão entre duração, matéria e percepção.
